quinta-feira, 28 de março de 2019

O terraço





Vamos contemplar a cidade daqui
do alto deste prédio,
à luz das estrelas; vagaluminosos
somos também, entre os astros novos.
Luzes destas ruas aos nossos olhos
transmutam-se em verões.
Nossas estações interiorizam-se
em corações. Ah, ah.

Vou voar e navegar de novo na ilusão
tornada real.
Entoa um cantochão madrigal
na noite dual.

Então vem, me faz
esquecer de sofrer...,
pois tens mil idades
em crer no viver...

Eternizo o teu langor.

Vamos contemplar a humanidade
como uma experiência,
um risco necessário ao destinatário,
um deus menino e sua carência.
Vamos acender as lâmpadas
de magia rediviva,
dar algum sentido ao vivido
ou à sofrida via. Ah, ah.

Vou voar e navegar no éter suspenso,
tua presença.
Coroar-te-ei de ramos,
auréola dos gamos.

Mas vem, me faz
esquecer de sofrer...,
pois tens mil idades
em crer no viver...

Eu sei, soa da cidade
um trem a correr...,
mas tens mil idades
no Bem – chão do Ser.

Eternizo...
eternizo...
eternizo o teu langor.







Art by: Pascal Campion

A última manhã





A última manhã,
a última tarde de sol para nós.
A última noite que cai
e se vai
sem ser notada.

As cores da manhã
em meio à distração, véu de ilusão.
Ou mesmo a tormenta que afasta
ou faz desgastar
as flores das sacadas.

Sem ter a visão, a chance,
última contemplação
de alvoradas,
madrugadas iluminadas,
pensei, do fundo desta cela,
nos jardins dos palácios.
Quando surgimos aqui,
para persistir, sorrimos.

Se o mundo receber
esta mensagem codificada,
quem estará a postos
em meio aos restos
da civilização?

Se restos não houver?
Nem sequer versos encapsulados?
Ou nenhum vestígio dos álbuns,
quer sejam alguns excertos
de emoção?

Quem foi, de nós, que errou
desde o início dos tempos?
Alvoradas,
madrugadas inutilizadas.
Do fundo desta esfera
de remorso universal,
quem dará um sinal
de que, afinal, ressurgimos?

Tanta solidão
não caberia neste céu azul.
Tanta solidão
não caberia numa canção.
Uma vida inteira
que caminha para a beirada
da insuficiência de toda ciência,
quando se sabe
que é a visão final
da vida.
Ou talvez a última canção
ouvida.

Ou seria a última manhã
para o mundo...?








Epifania





Limão e mel, os traços no papel;
os olhos se cerram como o dia encerra
sem ter palavras para definir
o inaudível zumbir
deste chamado natural.

Ainda é parte da revelação:
as cercas curvadas de trepadeiras agrestes –
as corredeiras cercam o que jaz
ao leste dos trigais –
degelos de hibernações
e as formas maternais do Ser Supremo:
o diadema prismático decompõe
o branco estático.

“Você é o ser
pelo qual anseia o jogral.
O filho da Terra e do Céu,
definidor de bem e mal.
Eu sou a rainha do ébano noturno profundo,
moldura da explosão dos grãos luminosos
de mundos seminais;
irradio sinais de dentro de você,
seu centro axial.

“E quando a luz voltar ao céu,
é lá que irei estar, no seu olhar,
a abençoar a quem não me esqueceu.
E quando o sol se eclipsar,
não busque mais longe e além:
perdoe a si mesmo antes do ‘amém’.”

Amendoado amor,
indica o pátio da fonte
do acolhimento total.

Perdoe a si mesmo antes do “amém”.
(E mais alguém.)
Perdoe a si mesmo antes do “amém”.
(Sem ver a quem.)
Perdoe a si mesmo antes do “amém”.
(E mais alguém.)








Os Minuanos





Anda só, sem rumo, te deixa levar.
Sente o ar que circula teus pensamentos
e mergulha em outro tempo.
Antes dos prédios e postes,
eles vagavam aqui, se assentavam
ao redor do fogo e reverenciavam
o ulular do vento.

Pois se o frio sopro te envolve,
ele te absolve do mal,
cometido ou sofrido, passado;
pois flui, reflui
e vai soprar tua dor deste lugar,
vai soprar tua dor deste lugar.

Imemorial,
dobra esquinas e umbrais.
Todas estas vidas
já deixadas para trás.

Hoje eles só vivem na herança que ficou
entre nós, ao redor; o Espírito paira
sobre a cultura e o valor.
Antes dos prédios e pressas,
eles nomadeavam pelos Pampas;
as mantas, em prumo as bandanas,
a cuia, o laço e o vigor.

Nomeavam campos e montes,
matas, fontes e rios.
Hoje é o que se respira
e vem no assovio
que vai soprar tua dor deste lugar,
vai soprar tua dor deste lugar.

Imemoriais,
somos parte de seu sangue
cada vez que nos pusermos
no fluxo avante.









A voz das águas





Ó marinheiro! Vejo que chegaste à margem
desta ilhota onde durmo e fumo memórias
de glórias passadas.
Sou um velho pescador nos rios,
os quatro que caem neste baixio
que em guarani se diz Guaíba;
é aqui minha lida desde o meu nascer.
Ouço o que as águas nos falam,
as ondas embalam
sua voz a dizer...

Quando sou lago, me apego ao lugar;
as profundezas vão vidas gerar.
Quando sou rio, volto a correr;
a correnteza cumpre o seu dever.

Aqui já estive muito antes dos casais
que dos Açores vieram, trouxeram suas flores
e esperanças.
Como estas margens, somos moldados
e também moldamos paragens,
trilhamos rotas, em botas, em rodas e remos;
desaguaremos
onde todas as almas se juntam.
As águas não lutam:
misturam-se em paz.

Quando sou lago, me apego ao lugar;
as profundezas vão vidas gerar.
Quando sou rio, volto a correr;
a correnteza cumpre o seu dever.

Somos nós todos pescadores!
Marinheiro, tu és um de nós!
Ouças a voz que é um aviso:
tu podes te renovar!
Ser parte deste lugar!
Tu tens que mergulhar.
Como o sol bem o faz...








Mantra # 1





era ex tu de um vê dois crê salamai vai trai sai
au deste hino um crê dois vê salamai vai trai lai

ere estúdio um crê três vê fiu le vai sai
ao destino um vê três crê fiu le vai sai
ao destino um vê dois crê fiu le vai
ere estúdio um crê dois vê fiu le vai sai trai vai

au deste hino um crê três vê salamai vai trai sai
era ex tu de um vê três crê salamai vai trai lai

era ex tu de um vê dois crê fiu le vai sai
au deste hino um crê dois vê fiu le vai sai
ao destino um crê três vê fiu le vai
ere estúdio um vê três crê fiu le vai sai trai vai

ere estúdio um vê dois crê salamai vai trai sai
ao destino um crê dois vê salamai vai trai lai

era ex tu de um crê três vê fiu le vai sai
au deste hino um vê três crê fiu le vai sai
au deste hino um vê dois crê fiu le vai
era ex tu de um crê dois vê fiu le vai sai trai vai

ao destino um crê três vê fiu le vai
ere estúdio um vê três crê fiu le vai sai trai vai








Mister Azar





Seu apelido é Mister Azar.
Seu apelido é Mister Azar.
Hoje eu sei por que:
fomos dar um rolê na Redenção
oh-oh-oh e a confusão começou
oh-oh-oh na multidão
que havia recém voltado
da Festa da Uva
com os litrões e os copinhos
bem diante do seu nariz,
oh-oh-oh e você na reab,
oh-oh-oh e quem não sabe?

Eles te chamam Mister Azar.
Eu sei por que chamam,
porque tive que carregar
e arrastar ao longo da Avenida Farrapos
o farrapo humano outra vez.
E o seu sogro PM fazia ronda ali,
e como somos inconfundíveis,
seu bigodinho Salvador Dalí,
oh-oh-oh não tínhamos onde ir
oh-oh-oh e nem sumir.

Seria só um acidente, eu tentei evitar;
mas há umas coincidências
que ninguém poderia negar.
Oh-oh-oh não foi o pai da mulher
oh-oh-oh que a convenceu a trocar
a vida difícil pela fácil demais.
(“Isso é demais.”)

Pensando nestes momentos
e acontecimentos,
você mesmo concluiu
que o melhor era vazar pro Rio.
Oh-oh-oh mas ainda era Brasil.
(Pê que pariu.)

Seu apelido é Mister Azar.
Seu apelido é Mister Azar
e o seu primo carioca
não falou que era uma maloca a recepção,
ou melhor, a receptação
e era justo um dia de “operação”.
Mas você é a lata do Snoop Dogg
em camisa falsificada do Flamengo,
cheio dos tiques e tocs,
oh-oh-oh e lá se foi no caveirão.
No caveirão.

O aloprado nem mesmo se ligou,
o artefato fatal
ou mais ou menos bom de cheiro
oh-oh-oh que comprou há pouco,
o Pinho Sol®.
Oh-oh-oh, oh-oh-oh.
Oh-oh-oh, oh-oh-oh.

O Pinho Sol®...









domingo, 24 de fevereiro de 2019

Letreiros de Hollywood





O planeta azul é bem menor
que no filme de Kubrick.
Alguém me explique, por favor,
por que o cinema é tão maior que a vida?

Eu sei que é demais para sua cabeça
pensar em termos de real e imaginário,
então vou cuidar para que o meu discurso
não possa matar mais cedo
os seus canteiros de inocência.

A rua principal não leva ao horizonte
como nos filmes de Chaplin.
Ninguém suportaria assistir
os tempos mortos deste tédio civil.

Eu sei que é demais para sua cabeça
pensar em como a sua estirpe chegou até aqui,
então vou me calar antes que eu seja
confundido com mais um
dos combatedores de moinhos de vento.

Eu bem quis imortalizar nossa união
ostensiva como os letreiros de Hollywood,
mas você disse ao Comitê
ter visto uma estrela vermelha
na touca de Robin Hood.

O quê serei, onde andarei
se os caminhos são só zero ou um?
O que sobrou da imaginação,
além do jogo da mútua destruição?

Eu sei que é demais para sua cabeça
pensar em coisas assim em pleno dia de sol,
então vou seguir nessa calçada
solitariamente, sem ter a quem mostrar
meu filme experimental.

Eu sei que é demais para sua cabeça
ir além do pequeno prazer que nos sobrou,
então vou seguir nessa estrada
iluminada pelas estrelas que acendi
em minha alma.

Eu sei que é demais.








domingo, 6 de janeiro de 2019

Verde-matrix





A noite começou estranha,
em terror lúdico;
o chão e os pés fazendo estalos
sonambúlicos.
“É o meu mundo,” então pensei,
“é o meu sonho que não controlei
bem a tempo de evitar
o confronto com as sombras vivas.”

Dançávamos despreocupados
ao som do jukebox.
Imaginários enlaces de um
romantismo atroz
da lembrança de um anão,
de um palhaço que adotara um cão,
de um mímico sem movimento
ou expressão de humanoide dúvida necessária.

É o meu mundo, é o que amei;
os espelhos que quebrei,
o que tento consertar;
o que quer que me pareça um lar.
O meu mundo, a minha voz;
estes ecos vindo a nós
de uma tela sem matiz
que se tingiu de verde-matrix.

Vou cobrir os ouvidos.
Pode gritar o que bem quiser.
A assim chamada “fraqueza da carne”
foi o que fez a História conhecida.

A noite terminou estranha,
mesmo tão banal.
As janelas da alma já injetadas
de verter seu sal.
E se eu fosse um androide?
E o seu passado, uma ficção?
Choraríamos juntos
ou levaríamos ao vórtice a opressão?

É o meu mundo, o meu jardim,
os meus campos de alecrim,
meu piano de cauda,
minha floresta esmeralda.
O que quer que me acalme,
evanesceu com a tarde...
pois, ao sul do meu país,
a noite caiu verde-matrix.

Quem dera se desarme
o apreensivo alarme...
pois, ao sul do meu país,
tudo está imerso em verde-matrix.